O fanatismo consiste em redobrar o próprio esforço quando esquecemos do objetivo.Gorge Santayna

SOBRE O FANATISMO

Canta Fágner na canção Fanatismo: “Minh’ alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver. Não és sequer a razão do meu viver. Pois que tu és já toda minha vida“. O fanatismo nada mais é do que a paixão dos fanáticos. A forma cegamente apaixonada, desmedida, irracional e persistente com que defendem suas crenças e opiniões, por qualquer coisa ou tema. Embora comumente associado a causas políticas ou religiosas, é muito mais amplo. Por exemplo, é um comportamento frequente em paranoides, cuja apaixonada adesão a uma causa pode avizinhar-se do delírio.

 

O fanático tem uma certeza, ele quer expressar sua certeza ao mundo e se possível convencer outros.Jorge Forbes - Psiquiatra

SOBRE O FANÁTICO

O apego por determinados gostos e práticas (como costuma ocorrer com colecionadores, por exemplo) não configura, necessariamente, um fanatismo. A conduta da pessoa fanática é marcada pelo radicalismo e pela total intolerância com todos que não compartilham de suas predileções. Os fanáticos são descritos pelas posturas de ódio, agressividade e individualismo excessivos, pelos preconceitos variados e por pouca ou nenhuma crítica.

O fanático é aquele sujeito teimoso e dogmático que despreza o diferente, pois o vê como fraqueza ou um simples e estúpido erro. Imune à dúvidas, não hesita, não negocia nem dialoga, pois seu mundo é todo branco ou preto, as situações são desgraça ou dádiva e as pessoas são amigos ou inimigos. São sempre dois extremos repletos de um enorme vazio entre eles.

O fanático normalmente usa da força para impor suas ideias. O que lhe interessa é apenas o resultado, logo, qualquer forma de atingi-lo é justificável. Está disposto a pagar qualquer preço para atingir o seu objetivo, embora prefira que “os outros” paguem esse preço. Por isso, acusa, ofende, ataca, magoa, machuca e desqualifica de forma bruta qualquer ideia ou pessoa que ousar se opor a suas opiniões. Aos demais resta defender-se dos fanáticos.

À sociedade cabe defender-se dos fanáticos, mas só existe uma maneira de fazê-lo: é combatendo a costumeira indiferença diante das ações empreendidas pelos fanáticos. Isso se consegue através da Educação, do esclarecimento, do exercício pleno da cidadania e do senso crítico, recorrendo à memória para aprender as lições que a História nos ensina. Tarefa árdua, permanente e de sucesso duvidoso, infelizmente.Ben Franz

 

VAMOS DIALOGAR? 

Sobre o tema trouxemos as seguintes contribuições para refletirmos, ao final, conte pra gente sua opinião e vamos dialogar!

  1. O texto de Roosevelt Cassorla*, “Notas sobre Fanatismo e mentira”, originalmente publicado em: Sociedade de Psicanálise Brasileira de SP.
  2. Em seguida, assista ao documentário da NatGeo, “Brasil – Fanatismo”. Segue a sinopse: “Uma mulher abre mão de se casar e ter filhos para se dedicar de corpo e alma ao seu time de futebol. Um professor de inglês afirma ser a reencarnação de seres de outro planeta e ter conexão com extraterrestres. Um homem adota costumes de séculos passados e parece estar deslocado de seu tempo e insiste em viver da mesma maneira que Jesus Cristo. Pessoas limitam a vida a um só ponto de vista e o defendem de forma radical. Uma maneira de enxergar o mundo ou fanatismo?”

 

NOTAS SOBRE FANATISMO E MENTIRA

Roosevelt Cassorla*

O mentiroso tem que saber a verdade para poder deformá-la. Portanto, sua capacidade de pensar é considerável. A mulher de Putifar, quando acusa José – personagem bíblico – de violentá-la, sabe que sua mentira é fruto do ressentimento por ter sido rejeitada sexualmente. Defrontamo-nos com aspectos perversos, diferentes dos ingênuos e psicóticos, em que erros de percepção redundam em falsidades. O ingênuo acredita que o Sol gira em torno da Terra. O psicótico afirma que está sendo perseguido. Ambos não estão mentindo, ao contrário da mulher de Putifar. O aspecto perverso pode confundir o analista quando o paciente se coloca como no paradoxo de Eumênides: “Um homem diz que é mentiroso. Isso é verdade ou mentira?”.

A perversão pode ramificar-se em mentira narcísica – aquela cuja função é apenas proteger-se da alteridade – e mentira com perversidade, aquela que também visa  atacar, difamar, caluniar e maltratar o outro.  Uma criança pode mentir por vergonha ou para evitar ser punida. Um criminoso mente para roubar ou matar alguém. Um invejoso mentirá para prejudicar o outro. A primeira é mentira narcísica.  As últimas, como as da mulher de Putifar, envolvem perversidade.

O fanático está absolutamente certo que suas ideias estão corretas.

 

O fanático está absolutamente certo que suas ideias estão corretas. Seu trabalho é “salvar” os que não acreditam na “verdade”. Aqueles que não se deixam “salvar” serão considerados inimigos. O fanático raramente mente. No entanto acredita em qualquer mentira que reforce sua crença. A parte fanática de todos nós é alvo fácil de “fake news”.

O termo “fanático’ vem do latim “fanus”, templo ou santuário. O fanático era o vigilante ou porteiro, que velava cuidadosamente pelo templo e, por extensão, pela crença. Ao contrário da maioria dos romanos que veneravam vários deuses, o fanático se dedicava, com fervor e exaltação, a apenas uma crença. Sua crença é a única verdadeira. Os não crentes serão combatidos e, se não vencidos, serão eliminados – até fisicamente – a solução “final”.

Em tempos mundiais de “nós contra eles”, o lado fanático de todos nós é facilmente estimulado. A mentira acompanhará a crença falsa quando necessário. Os judeus são exploradores, os negros e as mulheres inferiores, os homossexuais anormais indecentes, os islâmicos terroristas, os favelados são traficantes. Estas são as falsidades e mentiras predominantes em nosso tempo. O leitor conhece inúmeras situações de seu entorno.

 

O outro não é considerado como sujeito, mas como objeto de desprezo.

 

Como vimos, as configurações apresentadas atacam a alteridade. O outro não é considerado como sujeito, mas como objeto de desprezo, de manipulação e ataque. O contato com a alteridade é traumático e, por isso, o outro tem que ser eliminado. O tratamento psicanalítico – quando viável – entrará em contato com áreas altamente traumatizadas, vazios apavorantes, compensados por certezas e terrorismo excitantes.

O escritor Amos Oz nos conta de um motorista de táxi judeu cuja solução para o problema com os árabes era “matar todos eles”. Ao final de um diálogo, fingindo concordar, o interlocutor indaga: “Agora imagine que você entrou em uma casa e matou todos os árabes. Você se afasta e ouve o choro de um bebê, dentro da casa”. O motorista retruca, impactado: “O sr. é muito cruel !”. Este motorista não era, na realidade um fanático. Ao entrar em contato com a realidade, com a alteridade, pôde rever-se.

 

Colocar-se empaticamente no lugar do outro para abrir as possibilidades de diálogo

 

Atualmente os fanáticos de “direita” querem eliminar os de “esquerda” e vice-versa, não somente no Brasil. Não existe o desejo de colocar-se empaticamente no lugar do outro para abrir as possibilidades de diálogo. Como cidadãos e psicanalistas, temos que descobrir como fazer isso com nossos vizinhos, colegas, amigos e adversários. E com nós mesmos.

A denegação do fanatismo e da mentira pode conduzir-nos às situações tão bem descritas no poema de Niemöller (muitas vezes atribuído a Maiakovsky): “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar”. 

Texto originalmente publicado em: Sociedade de Psicanálise Brasileira

* Roosevelt Cassorla é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas. Professor Titular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Sigourney Award 2017.

 

Documentário: Brasil – Fanatismo

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