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MEU FILHO NÃO QUER VER O PAI, E AGORA?

Um dos problemas mais comuns para quem trabalha com atendimento familiar é a recusa da criança em encontrar o pai. “Mas, o que eu posso fazer se meu filho não quer ver o pai?” – é a frase mais comum entre as mães. Dirijo-me às mães, pois, na maioria dos casos, a guarda da criança permanece com a genitora. Mas, o raciocínio aplica-se também aos pais, avós ou outros familiares que, porventura, possam ter a guarda da criança. Respondo com outra pergunta:

  • Você, na idade que tem seu filho, já tinha maturidade para decidir se deveria ou não conviver com seu pai?
  • Você já tinha discernimento suficiente para saber, a longo prazo, o que era bom ou ruim para você?

Estou pensando em casos em que não há histórico de negligência nem maus-tratos. Casos em que o genitor não guardião cria os filhos da melhor forma que pode. Mesmo apesar das diferenças e desavenças entre o ex-casal. É a história de duas pessoas que compartilharam um pedaço de suas vidas, geraram uma criança e, por motivos diversos, decidiram se separar. Duas pessoas com valores diferentes e formas diferentes de criar a mesma criança.

 

Imagem: www.guiadobebe.com.br

UM CONFLITO DE LEALDADE

As mães acreditam que devem deixar a criança à vontade para decidir se quer ou não encontrar nos dias de convivência com o pai. O que é um grande engano, por diversos motivos.

Um deles é o famoso “conflito de lealdade”. Será que a criança diz que não quer ir por receio de deixá-la triste, mãe? Quem sabe não é porque ela pensa que, se gostar de ir e se divertir com o pai, ela vai te desagradar de alguma forma? Ou, talvez, ela já tenha percebido que você não simpatiza com o pai e esteja “tomando as suas dores”?

Outra possibilidade é: o pai chamou a atenção da criança por algo errado que ela fez ou exigiu um pouco mais na escola e, agora, ela está evitando o contato com o pai para não ter que enfrentar cobranças. Ou, quem sabe, você ou outro familiar materno fez uma proposta bem legal a ela e que acabou por competir com o final de semana do pai…

São milhões de possibilidades: desde o conflito de lealdade a algumas artimanhas infantis para fugir de algum desafio ou cobrança que elas receiam. E até, quem sabe, uma insegurança da mãe em deixar a criança sozinha com pai. Pensando somente nesses motivos: se for conflito de lealdade, você, ao permitir que ela escolha se vai ou não, só reforçará o conflito. Se for fuga de alguma responsabilidade, você estará privando seu filho de como aprender a lidar com as dificuldades da vida. E, por fim, se for uma insegurança da mãe, seu filho estará perdendo a oportunidade de vivenciar bons momentos por uma dificuldade que sequer é dele.

“Então eu devo obrigá-la a conviver com o pai”?

Não é questão de obrigá-la, mas de encorajá-la. “O quê? Não vou ajudar aquele xxx!” – é o que muitas mães me dizem. Não é questão de ajudar o ex-marido, é questão de ajudar o próprio filho e também a si mesma. Sem uma convivência com o pai, essa criança pode crescer com uma sensação de abandono dentro de si e não ter oportunidade de formar uma opinião autônoma sobre o próprio pai.

Mas ele não sabe como cuidar, ele deixa a criança sem limites!
Não concordo com a forma que ele cria a criança!”.

Sempre existirão desacordos quanto à forma de criar o filho. No caso dos pais separados, caso eles não tenham a liberdade de poder conversar sobre a educação do filho, precisam ter em mente que a criança conviverá com dois mundos diferentes. O mundo da família paterna e o da materna. Quando ele estiver com o pai valerá as regras dele e, quando estiver com a mãe, as regras da mãe. Cabe aos pais aprenderem a administrar essas diferenças e o reflexo delas.

Portanto, mães, incentivem SIM seus filhos a ir com o pai quando ele chegar para buscá-los! Deixe que eles tenham a oportunidade de conhecer novos horizontes e pontos de vista diferentes dos seus. Você estará trabalhando a favor da saúde mental do seu filho e da sua também!

[Créditos da imagem de capa: br.guiainfantil.com]

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Fernanda Cunha Guimarães
Psicóloga na Ministério Público de Minas Gerais |

Psicóloga | CRP 04-29.606

Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Psicologia Jurídica pela UNIARA. Tem formação em mediação familiar pela Escola Nacional de Mediação e Conciliação – ENAM. Trabalha com Psicologia Jurídica no âmbito familiar no Ministério Público de Minas Gerais e também com mediação de conflitos. Atua como Psicóloga Clínica de adultos em Belo Horizonte - MG.

Contatos: 31. 97302.5354 | guimaraesnanda@yahoo.com.br