O psicologo escolar, a escola e a Família.  Tempo de leitura ~7 min~

Ao iniciar a presente reflexão, proponho que se prontifique a ser modesto(a) no que diz respeito às suas expectativas por respostas. Longe da pretensão de produzir respostas. Desejo lançar luz sobre a complexidade que envolve o processo formativo na infância e na adolescência,.Edgard Morin, um dos grandes pensadores contemporâneos da educação, se levantou contra o saber fragmentado, revelando a dimensão da complexidade como essencial para lidar com tudo que envolve o ser humano. Sob essa inspiração, lhe convido a se insurgir contra a fragmentação da responsabilidade por educar.

No rumo aqui proposto, recomendo permear a tensão que, não raras vezes, se desdobra nas relações família/escola, algumas delas até com a contribuição de profissionais da psicologia. O maior risco dessa situação é que em um ambiente de animosidade, se perca de vista o principal elemento dessa relação que é o desenvolvimento da criança ou do adolescente, cedendo lugar para disputas de poder e saber.

Para que esta reflexão não se torne exaustiva, pretendo organizar o presente texto, de modo que se diferencie, com clareza, o papel de cada um desses atores, tendo como eixo orientador o princípio narrado no artigo 2º do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente (Brasil, 1990) que versa:

Logo, já se tem claro que a educação é dever da família, ao passo que a escola, por sua vez, se apresenta enquanto um agente que cumpre com a função de assessorar nesse processo. Tal como a escola, o psicólogo é um profissional que, quando requisitado, também cumprirá com a função de assessorar. Mas como esses papéis se definem e se articulam nesse processo? É o que iremos discutir adiante.

A terceirização de funções

Um grande problema instalado na contemporaneidade é como têm se emaranhado os papeis desempenhados por seus atores. Há uma crescente onda individualista, que traz em sua crista o problema da terceirização de funções. Terceiriza-se a paternidade/maternidade pelas mais diversas razões, alguns o fazem por receio de não dar conta de todas as obrigações cotidianas, somadas à responsabilidade de ser pai/mãe, outros por um desejo pela paternidade/maternidade sem prever as obrigações que vêm a reboque, às vezes acontece por receio de um modelo de vigilância instalado para orientar como deve ser uma paternidade adequada, o que é, no mínimo, questionável.

Não irei me deter nos motivos que induzem as famílias a terceirizar os papeis da paternidade/maternidade. Isso é assunto para uma outra ocasião. Embora seja impossível ignorar tal fenômeno para essa discussão.

Importa que, em virtude desse processo de desresponsabilização, escola, família e o psicólogo escolar frequentemente se envolvem numa trama que tira de cena justamente aqueles que deveriam estar no foco de suas atenções, a criança ou o adolescente. De fato, há muitos riscos assumidos tanto no papel de pais quanto no de educadores, responsabilidades que geralmente estão muito longe de serem consideradas confortáveis. Os cuidados básicos de uma criança, e mesmo de um adolescente, são desafiadores para a família. O processo educativo de uma criança ou um adolescente no espaço de uma instituição é atravessado por inúmeros riscos. É fundamental, à escola e à família, conhecerem bem os limites umas das outras e, especialmente, estarem dispostas a serem transparentes no que diz respeito às suas próprias limitações.

Antes de mais nada, presume-se que o objetivo de uma família ao escolher uma escola é lhe proporcionar boas condições de desenvolvimento cognitivo, afetivo e social. Idênticos são, ou deveriam ser, os objetivos da escola. E quando surge a necessidade de encaminhar a criança para um atendimento psicológico, o objetivo final permanece exatamente o mesmo.

 

O papel da família

A família é, ou ao menos deveria ser, um local de proteção. É o principal laboratório para a introjeção de normas e valores socioculturais. Nela a criança aprende códigos culturais, sociais, religiosos. Bem como desenvolve e experimenta relações de afeto, cuidado, disciplina e autoridade, de modo a se cunhar importantes componentes de sua personalidade; tais como resiliência, disciplina, criatividade, autoconfiança dentre outros.

Há de se reconhecer, entretanto, a existência de grandes desafios. Visto que não há um manual de instruções para o “bom” desenvolvimento da criança. Tal fato se complementa com a difícil tarefa de conciliar o tempo de trabalho, as obrigações domésticas do casal e as diversas demandas da criança ou do adolescente. Dessa maneira, partindo do princípio de que a escola é um agente educador, algumas famílias confundem-se com a ideia de que a escola é O lugar de educar. Mas qual seria, de fato, o papel da escola?

A escola é um agente que tem como função assessorar às famílias na introdução da criança e do adolescente nos processos sociais e culturais. Visando sim o seu desenvolvimento enquanto sujeito, cidadão e, futuramente, um profissional. Na escola aprende-se, para além dos saberes cognitivos, sobre a convivência comunitária. De modo que a criança vivencie as suas primeiras experiências na formação de redes. É nesse contexto que a criança colocará em prática, e à prova, as formas de socialização, .geralmente aprendidas na família,. bem como aprenderá outras formas a partir de suas experiências.

Talvez, o maior desafio das escolas, nesse contexto, seja de superar os métodos e recursos que se pautam pela comparação.

Quando Piaget cunha os estágios do desenvolvimento infantil ele deixa claro que as crianças podem se desenvolver em tempos diferentes. Todavia, seguimos um modelo educacional em nosso país que costuma engessar a escola, dado o fato de ser regido pela lógica do desempenho. Cria-se portanto, no contexto escolar, um duplo vínculo. De um lado há o interesse de atender uma demanda de mercado,. e dos pais, ao garantir o alto desempenho cognitivo da criança. Por outro lado, deve-se respeitar o tempo de cada sujeito em seu processo de desenvolvimento. Conflito, que geralmente culmina em experiências extremamente desconfortáveis. Em alguns casos, também constrangedoras. Tornando-se a experiência escolar um obstáculo, ao invés de um facilitador, para o desenvolvimento.

É quando, geralmente, se aciona o psicólogo escolar, mas para quê?

Hoje não é possível dizer que há uma única psicologia. As abordagens são diversas, bem como ocorre com as suas correntes. Por vezes há um grande número de discursos e práticas diversas para demandas muito semelhantes. Contudo, independente de qual abordagem ou corrente teórica que o psicólogo escolar atue,. o seu objetivo sempre deve estar voltado para o bem-estar do sujeito em questão. Para tanto, o psicólogo se atentará aos aspectos mais internos da criança que chega à sua clínica. Buscando, por meio de intervenções diversas, realizar um trabalho que permita trazer à tona. os fatores que de alguma maneira podem atrapalhar o pleno desenvolvimento de seu paciente. e, assim, buscar estratégias que lhe permitam se fortalecer.

É fácil observar que os papéis são diferentes, embora haja intercessão entre eles. Contudo, não tem como negar que os objetivos da escola, da família e do profissional de psicologia. no atendimento a uma criança ou a um adolescente são, precisamente, os mesmos. Por isso, deve haver empenho de todas as partes para que mecanismos de defesa; quais sejam para proteger lugares fantasiosos de “boa mãe”, “bom pai”, “boa escola” ou “bom psicólogo”; não fomentem a disputa de quem faz melhor em detrimento do fazer juntos. O que está em jogo nessa trama, acima de tudo, é o melhor interesse da criança. E isso não pode passar despercebido.

Qual é a melhor escola para o meu filho?

Visto tudo que já apontei, se me perguntassem “qual é a melhor escola para o meu filho?” A minha resposta, seguramente, não se basearia em um ranking oficial de grandes escolas. Certamente, eu cederia ao meu maior desejo de dizer: a escola mais próxima da sua casa; desde que tenha as suas portas sempre abertas para receber a família; desde que esteja disposta a se repensar e se reinventar, visando as melhores escolhas para a formação de seus educandos; desde que em meio ao desafio de educar para socializar dê conta de conhecer, em sua particularidade; e principalmente, que seja capaz de respeitar a criança. enquanto sujeito que vivencia um processo de construção sendo também ativo em construir o espaço que o rodeia.

Selecionados para você:

Sobre o autor:

Pablo Ferreira Bastos Ribeiro
Psicólogo na | + posts

Psicólogo | CRP é 04/42.582
Graduado em Psicologia pela PUC Minas e mestrando de Psicologia Social pela UFMG. . Atua com Psicoterapia Infantojuvenil e de Família. Experiência nas áreas de Psicologia Clínica e Psicologia Social, atuando com Políticas Sociais e Urbanas.
Contatos: (31) 98738-0377 | pablo@dialogopsi.com.br