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Sobre a Presença paterna

Você sabia que somente por volta de sete mil anos atrás, em algumas civilizações mais avançadas, que se descobriu a relação entre o ato sexual e a procriação? Pode não parecer pouco tempo, mas se levarmos em conta que o homem anatomicamente moderno já existe há cerca de 200 mil anos e que atingiu o comportamento moderno há cerca de 50 mil? Isso significa que por milhares de anos os pais não tiveram consciência sequer de que tinham alguma participação no ato de procriar.

Pensando a contemporaneidade, com todos os seus avanços culturais em comparação a sete mil anos atrás, ainda há incontáveis casos de pais que, distanciados das transformações e desenvolvimento de seus filhos, tornam-se meros e costumeiros provedores. É justo recordar que não há manual de instruções para ser pai, e nem mãe. Mas se há algo que se possa fazer para qualificar a relação com os filhos, por que não? Foi exatamente o que se perguntou o Pai Criativo, nosso personagem fictício.

 

Um pai presente

Ele trabalhava em dois lugares diferentes, um que garantia o seu salário fixo e outro que lhe permitia uma complementação de renda. Suas maiores dificuldades estavam em equacionar as expectativas de maior presença em casa, conforme desejava sua família, e lhes garantir “mais conforto”, tal como ele acreditava que o restante do mundo esperava dele. Por aproximadamente 10 anos, optou por não sucumbir àquilo que fantasiava ser sua obrigação. E assim permaneceu até notar que a palavra “mais” tende ao infinito e à medida que tentava se aproximar desse ideal, afastava-se do que deveria ser a razão de todo o seu empenho, melhorar a qualidade de vida de sua família.

o-PARENTS-PLAYING-WITH-KIDS-facebookFoi quando o Pai Criativo decidiu trocar suas horas no trabalho extra por algumas horas a mais quebrando a cabeça para ajudar seu filho a fazer o dever de matemática, outras jantando com a família e mais algumas em idas à pracinha do bairro para as crianças andarem de bicicleta. É fato que também se ocupou dessas horas para separar as brigas entre os filhos, participar da divisão das tarefas domésticas da família, ir às reuniões de condomínio e mandar o filho desligar o videogame para ir dormir, mas o seu tempo ganhou uma nova dimensão, assim como o de todos os demais. Isso é, de fato, a presença paterna necessária!

 

Tempo não vale dinheiro, e sim qualidade de vida

É importante lembrar que, segundo Freud, para a maioria dos seres humanos, dos tempos atuais ou primitivos, a necessidade de se apoiar em uma autoridade de qualquer espécie é tamanha, que quando essa autoridade é ameaçada, o seu mundo desmorona. O Pai Criativo teve a sensibilidade necessária para perceber que nada ameaçava mais a sua autoridade do que a sua ausência e fez o que precisava, dentro do seu raio de alcance, para sanar esse problema.

A escolha do Pai Criativo, por abdicar da complementação de renda para vivenciar os momentos familiares e o desenvolvimento de seus filhos, comprova que tempo não vale dinheiro, e sim qualidade de vida. Ao abrir mão de comprar mais coisas para seus filhos ele não renunciou de lhes dar uma vida melhor, pelo contrário, melhorou a sua própria forma de viver e, consequentemente, a da família toda.

Embora o Pai Criativo, nesse caso, pertença a uma família tradicional, nuclear, é imprescindível dizer que a presença da figura paterna independe da configuração familiar. Ela também pode se fazer valer em famílias nas quais o pai mora longe, ou em que houve separação dos cônjuges, em casos de crianças cujo pai (ou os pais) já faleceu (ou faleceram) e mesmo em uma família constituída por duas mães (ou dois pais). Para tanto, basta amar, reconhecer a importância de sua presença e encarar o desafio de criar estratégias para se manter presente e atuante no desenvolvimento de suas crianças.

E por fim…

Disso tudo, nos importa mesmo é que o Pai Criativo reviu o seu conceito de presença paterna, para poder acompanhar todas as transformações que acontecem no dia-a-dia de sua família e participar delas. Assim, em tempo de ver os seus filhos crescerem, ele se reinventou junto de sua família, pois, parafraseando Clarice Lispector, “somente não muda o que não é vivo”.

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Pablo Ferreira Bastos Ribeiro

Psicólogo | CRP é 04/42.582

Graduado em Psicologia pela PUC Minas e mestrando de Psicologia Social pela UFMG. . Atua com Psicoterapia Infantojuvenil e de Família. Experiência nas áreas de Psicologia Clínica e Psicologia Social, atuando com Políticas Sociais e Urbanas.

Contatos: (31) 98738-0377 | pablo@dialogopsi.com.br