Meu pai foi ausente   Tempo de leitura ~3 min~

Pai não é coadjuvante da mãe, é seu complementar. Paternidade é a atitude de estar pronto a atender seus filhos, sem esperar que a mãe peça. Içami Tiba

Eu tive um pai ausente 

Essa não é uma história incomum e não está no passado apenas de uma geração, já adulta. Ainda hoje, é o presente de muitas crianças. São histórias de pais que, apesar de estarem presentes de corpo físico, não são efetivamente presentes na vida dos filhos. A maioria deles amam seus filhos, não duvide, mas esse sentimento não é demonstrado, não se transforma em ação. Eles não conversam, não dividem, não acolhem as dores, incentivam ou celebram as conquistas dos filhos. Estão ali, mas não estão.

meu pai foi ausenteSer amado pelos pais é um dos fatores que constituem um bom ambiente para o desenvolvimento psíquico da criança. Entretanto, o amor sem compromisso – um sentimento sem ação – não é o suficiente.

É preciso que os pais se comprometam, que se façam presentes. Pois é a partir de suas ações que os filhos entenderão que seus pais estarão disponíveis em momentos bons e ruins, que eles servirão de oásis quando as dificuldades da vida se impuserem como o mais seco dos desertos. Saber que pode recorrer ao apoio dos pais é a segurança que uma criança precisa para explorar e ganhar o mundo com seus novos passos.

Quais serão as marcas na vida adulta quando a indiferença é a principal lembrança dessa relação pai e filho?

 

 

A vida é preferível, com suas feridas e dores, a esta morte do coração que se chama indiferença. Balzac

“Meu pai foi ausente”: A indiferença dói mais

indiferença – substantivo feminino
  1. estado de tranquilidade daquele que não se envolve com as situações; desprendimento.
  2. falta de interesse, de atenção, de cuidado, de consideração; descaso; desdém.

meu pai foi ausentePodemos ler no comportamento do indiferente as seguintes mensagens: “isso não me interessa”, “essa pessoa não tem valor para mim” ou “suas ações não me afetam”. Isso porque a indiferença está diretamente relacionada ao valor. Quanto maior valor determinada pessoa ou situação tiver para nós, mais diferença fará e terá mais acesso à nossa atenção, cuidados ou afetos. Logo, quanto menor valor, maior a indiferença.

A indiferença é o nada, é o vazio de afeto – um não afeto. Ser indiferente a alguém significa que estamos ‘retirando de campo’ nossos sentimentos. Se de um lado da relação existe essa ausência do sentir, do outro a indiferença é sentida e, muitas vezes, com um impacto mais violento do que teria a raiva ou um embate.

A criança tem na figura dos pais seus heróis particulares; a quem pode recorrer e confiar. Portanto, o ‘nada’ dos pais é ‘tudo’ para uma criança. Surge um silêncio amargo dessa ausência e, junto dele, incertezas e perguntas, como: Por que não tenho sua atenção?

Questionamentos que a criança buscará responder, muitas vezes, chegando à conclusão de que a causa dessa indiferença é ela mesma. Ou seja, ele não me ama e a culpa é minha, ou o motivo está em mim.

Tanto quanto a indiferença é relacionada à insensibilidade, ao desapego e à frieza, mais provável que as respostas que os filhos encontrarão para a ausência dos pais seja a do ‘não amor’. Afinal, essas características não combinam com o que é esperado em uma relação equilibrada e saudável, menos ainda relacionadas ao amor. Podemos até dizer que indiferença e amor são perfeitamente contrárias!

O resultado?

O resultado dessa relação é fácil de imaginar.

meu pai foi ausenteLopes (2012) indica que o “afeto proveniente da presença dos pais é o que permite à criança construir e ocupar imaginariamente um lugar privilegiado no desejo do Outro. A privação precoce dessa experiência retorna sob a forma de uma diversidade de sintomas, na medida em que prejudica ou até mesmo impede a construção deste lugar libidinal imaginário necessário ao desenvolvimento da vida social como um todo”.

A ausência crônica dos pais pode acarretar desde comportamentos agressivos ou rebeldes para atrair a atenção dos pais, até mesmo levar a estados de depressão, isolamento, insegurança, baixa auto estima, alienação e afetar a capacidade de construir relações saudáveis. E estes sintomas podem persistir por toda a vida adulta.

Portanto, pai, aproveite [de verdade] o tempo com seus filhos, sem distrações. Crie um ambiente familiar de ternura e apoio. Providencie tempo dedicado à eles. Não deixe de investir amor, atenção e educação em seus pequenos.

Como pai, tenho que intervir. Mesmo que erre a medida e seja chato. Fabrício Carpinejar

Referências Bibliográficas

LOPES, R. G. De que sofrem os filhos de pais separados? Revista aSEPHallu, Rio de Janeiro, vol. VII, n. 13, nov. 2011 a abr. 2012. Disponível em www.isepol.com/asephallus 

Sobre o autor:


Júlia Maria Alves| Psicóloga | CRP 04-30.828 

Graduada em Psicologia pela UFMG, especializada em Gestão de Pessoas pela Fundação Dom Cabral (FDC). Atua na área de Psicologia Clínica e Organizacional, realizando Psicoterapia de adultos e idosos e Orientação Profissional para vestibulandos e na aposentadoria. 

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Júlia Maria Alves

Psicóloga | CRP 04/30.282

Graduada pela UFMG e pós-graduada em Gestão de Pessoas pela Fundação Dom Cabral. Atua na Diálogo com Psicoterapia de Adultos e Idosos; Orientação profissional e de carreira. Experiência nas áreas de Psicologia Organizacional, atuando com Gestão do Relacionamento e Desenvolvimento de Gestores.

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