Responsabilidade emocional   Tempo de leitura ~5 min~

O objetivo do presente artigo é problematizar o termo “responsabilidade emocional”, o qual tem sido usado por vezes de forma ambígua ou indiscriminada, por vezes respaldando comportamentos violentos que perpassam relacionamentos abusivos e oferecendo, por conseguinte, prejuízos ou riscos à saúde mental.

 

Você se sente responsável ou já foi responsabilizado pelas emoções de alguém?

Responsabilizar-se pelas emoções de outrem significa assumir o compromisso de responder por essas mesmas emoções. Ora, mas não faria sentido responder por algo em que não tivéssemos participação, mesmo que indireta, não é mesmo? A resposta por emoções alheias demanda, portanto, uma implicação pessoal anterior a ela. Isso quer dizer que, ao respondermos pelas emoções de outra pessoa, subentende-se que estivemos implicados em seu surgimento ou que participamos dele. Em outras palavras, admitir nossa responsabilidade pelas emoções de outra pessoa significa admitir, também, que somos – mesmo que em parte – causadores destas emoções.

Devemos observar que o termo problematizado aqui contém a palavra “emocional” ao invés de “sentimental”. E qual é a diferença entre emoção e sentimento? Tendo em vista que elucidar esta diferença não é o objetivo do presente artigo, permitam-me fazê-lo de forma breve:

As emoções podem ser compreendidas como respostas neurais, baseadas na memória, a estímulos externos recebidos pelo cérebro. Elas se manifestam por meio de alterações corporais, como expressões faciais, contrações musculares, suor, cor da pele, choro e aceleração do ritmo cardíaco.

Os sentimentos, por sua vez, são interpretações que fazemos das emoções. Diz-se, assim, que emoções e sentimentos fazem parte de um mesmo processo; enquanto aquelas se referem à parte deste processo que se torna pública por meio do corpo, estes se referem à parte que se mantém privada, ocorrendo na mente.

Diante das definições supracitadas, podemos questionar o seguinte:
  • Parece coerente respondermos por reações corporais de outra pessoa, advindas de respostas neurais baseadas em suas próprias experiências passadas, as quais provavelmente nem sequer conhecemos?
  • Ademais, ainda que o termo em questão fosse “responsabilidade sentimental”, faria sentido responder por interpretações realizadas por outra pessoa a respeito de suas próprias emoções?

 

O controle sobre as emoções dos outros e os relacionamentos abusivos

relacionamento abusivo, responsabilidade emocionalRefletiremos agora sobre outro aspecto concernente ao termo “responsabilidade emocional”: o suposto controle sob outrem. Partindo do princípio de que responder por uma dada emoção alheia implica em participar de seu surgimento e, em alguma medida, ser seu causador, poderíamos inferir que se encontra implicado nesta responsabilidade certo controle exercido sobre a pessoa que se emociona. Contudo, a respeito do conceito de liquidez, de Zygmund Bauman (2007), o controle, muitas vezes, não é mais do que uma ilusão, haja vista vivermos tempos voláteis e não sermos sempre capazes de prever as mudanças que lhe são inerentes, muito menos de escolher sua direção. Se o controle é tantas vezes ilusório, não poderia ser ilusório também o que denominamos “responsabilidade emocional”?

Para aprofundarmos a reflexão, admitamos, sim, o controle; não a partir de uma perspectiva determinística, mas a partir de uma perspectiva probabilística, admitindo-o, então, enquanto a influência que podemos exercer sobre outrem.

Tomando por base relacionamentos abusivos, que tipo de uso poderia se fazer da ideia de que somos responsáveis pelas emoções de outra pessoa, podendo exercer influência sobre seu surgimento? Adotando uma abordagem mais direta: quantas formas de violência psicológica poderiam ser respaldadas por esse conceito?

Para elucidar o questionamento, seguem alguns exemplos de ameaças comuns em relacionamentos abusivos:
  • “Se você sair por essa porta vestida assim, não responderei por minhas ações”,
  • “Será sua culpa se eu perder o controle e bater em você, pois já mandei você parar de falar com ele”,
  • “Se você for para alguma festa com seus amigos, não reclame se eu tiver uma crise de ciúmes”,
  • “Se você terminar comigo, vou me suicidar”,
  • “Vou ficar irritado se você continuar falando”.

Percebem que em todos esses casos, há responsabilização – ou culpabilização – do parceiro ou da parceira por emoções sentidas ou previstas? Ainda no que se refere a relacionamentos abusivos, do mesmo modo que poderia embasar as ameaças supracitadas, o conceito de “responsabilidade emocional” poderia embasar julgamentos realizados por terceiros, tais como:

  • “Você não deveria ter aceitado essa bolsa pra estudar fora, porque sabe que sua namorada é ciumenta e tem crises de ansiedade”,
  • “Por que você deixou de atender a ligação se já sabe que ele se torna agressivo quando se sente inseguro?”
Por fim, auto julgamentos também poderiam ser motivados pelo conceito em questão, como o seguinte:
  • “É minha culpa ele ter me espancado, pois eu provoquei sua raiva ao não ter avisado que me atrasaria”.

Suponha agora que uma de suas ações tenha gerado sofrimento para uma pessoa ou que poderia gerar caso chegasse ao conhecimento dela. Você certamente não seria leviano de pensar que agiu segundo seus valores, interesses ou crenças, sem intenção de prejudicar alguém, e que, portanto, nada tem a ver com o fato de alguém ter sido afetado negativamente por sua ação. Ao invés disso, você poderia refletir e chegar à conclusão de que agiu de forma desrespeitosa, tendo talvez até mesmo violentado alguém moral ou psicologicamente, por exemplo. Nesse caso, de que lhe serviria a “responsabilidade emocional”? Culpa, auto penitência, sofrimento? E se não fosse você, mas outra pessoa a chegar à mesma conclusão? Possivelmente isso resultaria em julgamento, punição, culpabilização e mais sofrimento.

 

A esta altura, já deveríamos ter nos questionado: o que é responsabilidade, afinal?

Como Savater (1997), entendo que “ser responsável é saber-se autenticamente livre, para o bem ou para o mal: enfrentar as consequências do que fizemos, emendar o mal que possa ser emendado e aproveitar ao máximo o que é bom” (pp. 108-109). Ademais, “responsabilidade é saber que cada um de meus atos vai me construindo, vai me definindo, vai me inventando. Ao escolher o que quero fazer vou me transformando pouco a pouco. Todas as decisões deixam marca em mim mesmo antes de deixá-la no mundo que me cerca” (p. 111).

Nesse sentido, minha intenção ao problematizar o conceito de “responsabilidade emocional” não é de modo algum desresponsabilizar as pessoas pelo que fazem, inclusive porque, como alerta Savater (1997), o mundo que nos cerca já “está cheio de ofertas para descarregar o sujeito do peso de sua responsabilidade” (p. 109). Minha intenção, como já disse anteriormente, é elucidar os prejuízos e riscos que este conceito pode representar para a saúde mental, tendo em vista poder respaldar diferentes tipos de violência que perpassam relacionamentos abusivos.

Savater (1997), ao discorrer sobre ética, afirma que todas as pessoas devem ser tratadas como pessoas, isto é, com respeito e amor. Segundo o autor, tal tratamento demanda que nos coloquemos no lugar do outro, respeitemos seus direitos fundamentais, inclusive o de integridade, e relativizemos nossos interesses para harmonizá-los com os dele.

Assim, cabe a pergunta: precisamos do conceito de “responsabilidade emocional”? A mim parece suficiente pautarmos nossas ações pela ética.  Não seria o bastante recorrermos à ética para orientar o modo como tratamentos as pessoas? E, se em vez de responsabilidade emocional e julgamento, houvesse ética e empatia? E, se em vez de responsabilidade emocional e culpa, houvesse remorso, reflexão, autoconhecimento e mudança?

O conceito de responsabilidade emocional, portanto, pode ser incoerente, ilusório, injusto e perigoso. Além disso, torna-se desnecessário na medida em que podemos e devemos recorrer à ética pra pensar em como amar e respeitar as pessoas.

Referências bibliográficas:
  • Bauman, Z. (2007). Tempos Líquidos. Rio de Janeiro (RJ): Zahar.
  • Savater, F. (1997). Ética para Meu Filho. São Paulo (SP): Martins Fontes.

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Larissa Coelho Albertin

Mestra em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) (2015). Foi estagiária de graduação (2013-2014) e de pós-graduação (2016-2018) no Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Defesa de Direitos Humanos (CAO-DH) do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG). Atua como psicoterapeuta em Belo Horizonte (MG) e São Gonçalo do Sapucaí (MG). Realiza voluntariamente atendimentos psicológicos de caráter psicoterápico na Casa de Referência da Mulher Tina Martins, em Belo Horizonte (MG).