Tomada de decisões   Tempo de leitura ~3 min~

No texto anterior apresentei um pouco sobre o processo de Tomada de Decisão através dos conhecimentos das neurociências /neuropsicologia. Nele sugeri continuar no tema para falar um pouco mais sobre como as emoções podem atuar no processo de tomada de decisões.

Antes de iniciar é importante dizer que essa interação entre emoção e decisão já foi um pouco explorada em um texto anterior: “Os mitos sobre as emoções – parte 1”, quando foi questionada a ideia de que a emoção abala a razão.

Pois, já se sabe que a emoção:
  • Cumpre um papel de regulação e adaptação do indivíduo ao ambiente;
  • Está intimamente ligada aos processos cognitivos/intelectuais;
  • Orienta os comportamentos da pessoa diante das situações significativas.

Então, vamos aqui partir do conhecimento que já foi anteriormente apresentado. Emoção não é contrário a razão e de que é importante considerar os estados emocionais quando se for tomar uma decisão relevante para nossa vida. Deixando claro que, considerar a emoção, não necessariamente é se guiar exclusivamente pelo que sentimos.

Estudos científicos já têm demonstrado que a emoção pode contribui no processo de tomar uma decisão acertada. Já em 1996, Antônio Damásio comprovou através de estudos que pessoas com lesão cerebrais. que afetavam o processamento emocional, mas com intelecto preservado, tinha sua capacidade de tomar decisões prejudicada (interessados podem buscar pelo fascinante caso de Phineas Gage). Por outro lado, relatos mais atuais da linha de neurociências aplicada á gestão de negócios sugerem que pessoas com cargas emocionais mais intensas ou que identificam melhor seus sentimentos atuais avaliam melhor seu desempenho no processo de tomada de decisão, algo que tem sido citado como uso estratégico das emoções.

 

AGORA COMO ISSO ACONTECE?

Nós temos uma capacidade cerebral limitada. Ou nas palavras de Cosenza (2016, p.100) “é praticamente impossível processar conscientemente todos os dados disponíveis antes de tomar uma decisão. Uma forma de lidar com esse problema, propõe Damásio (1996), seria levar em conta o sentimento derivado das sensações corporais, antes mesmo de fazer uma análise cognitiva mais completa”.

A vantagem da emoção é que ela tem uma grande conexão com a memória. Eventos considerados de uma valência emocional (significativo) são mais consistentemente registrados na nossa memória e são trazidos à tona de forma quase instantânea para usufruto futuro em situações análogas àquelas que foram ocasionados. Assim a emoção entra como um mecanismo de informação RÁPIDA que tem uma própria lógica de funcionamento, mas que é capaz de complementar a racionalidade quando o pensamento lógico e matemático tende a ser insuficiente.

Tomada de decisões

O FUNCIONAMENTO PODE SE DAR DA SEGUINTE FORMA:

A emoção traz à tona sensações (positivas ou negativas) de possíveis desfechos,. baseando-se em experiências passadas que se assemelham de certa forma àquilo que o indivíduo. está presenciando ou vislumbrando que possa acontecer caso se decida por essa ou aquela opção. Dessa forma, as informações emocionais tiram a neutralidade das opções viáveis. e contribuem para que a decisão aconteça de forma mais rápida e vantajosa.   Esse pacote de informação de conteúdo emocional que ajuda a guiar nosso comportamento foi nomeado por Damasio como Marcador Somático.

A vantagem de trazer as informações dos estados emocionais quando se vai tomar uma decisão importante é que você entra em contato com informações “individuais”. (partem da sua própria bagagem de vida) de como possíveis desfechos podem te afetar de forma positiva ou negativa (em outras situações isso foi bom ou ruim para mim?).

Dessa forma há maiores chances de agir coerentemente com aquilo que te motiva e menor probabilidade da suas decisões violarem seus próprios ideais e suas próprias fronteiras e/ou fronteiras daqueles que são importantes no seu convívio.

Por outro lado, é preciso saber distinguir o ato de levar em consideração as informações provenientes das emoções. quando se for tomar uma decisão, do ato de se decidir baseado em uma emoção atual e/ou intensa, como foi anteriormente mencionado.  Pois, em algumas situações a emoção que a pessoa vivencia no instante da decisão. pode estar ligada ao momento presente, não necessariamente ao ponto de decisão, ou ao rol de possibilidades, mas mesmo assim acaba por obscurecer as alternativas.  Um exemplo seria uma pessoa fragilizada por uma decepção amorosa que, tomada pela sensação de desvalia,. acaba avaliando mal suas perspectivas numa decisão no campo profissional e opta no rol das possibilidades por um caminho mais seguro e de menor retorno e que tem uma demanda aquém daquela que é capaz de realizar.

 

Para finalizar, quando se vir diante de uma decisão importante, pode se empenhar para fazer uso estratégico da emoção:
  • Conhecer seu estado emocional atual;
  • Certificar-se de que o seu estado emocional não impõe juízos errôneos sobre suas possibilidades. (ex.: fazer uma avaliação extremamente positiva quando se sente bem e exageradamente negativa quando se sente mal);
  • Além de procurar entender bem a questão e o que implica cada possível caminho,. averiguar que tipo de reação emocional essas opções desencadeiam. Considerar possíveis razões dos sinais agradáveis e/ou desagradáveis, buscando relacionar com experiências passadas.
  • Assim como monitorar os resultados, monitorar também as alterações no estado emocional associado a esse processo de decisão. Pode ser grande dica para necessidade de ajustes, ou que pode ser necessário avaliar uma mudança de planos ou reorientação.

Referências:

  • COSENZA, Ramon M. Por que não somos racionais: como o cérebro faz escolhas e toma decisões. Porto Alegre: Artmed, 2016;
  • DAMASIO, Antônio Rosa. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo : Companhia das Letras, 1996.
  • Imagem da capa: Coração Ilustrador

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Sobre o autor:

Nathalia Santos da Costa Vieira
Psicóloga e Neuropsicóloga na | + posts

Psicóloga | CRP é 04/28.003
Psicóloga e mestre em Neurociências pela UFMG, pós-graduada em Neuropsicologia pela FUMEC. Experiência clínica em Atendimento Psicoterapêutico, Avaliação Neuropsicológica e Orientação Profissional e de Carreira. Experiência em docência em cursos de graduação, pós-graduação de psicologia e psicopedagogia e capacitações em instituições de ensino. Psicóloga na Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura de Nova Lima.
Contatos: (31) 99903-6225 | nathalia@dialogopsi.com.br