Tomando decisões   Tempo de leitura ~4 min~

Um dos assuntos freqüentes em atendimentos psicológicos, seja na terapia convencional, na orientação profissional, nos recursos humanos, etc., diz respeito às decisões. O tema pode decorrer de decisões já tomadas e suas conseqüências,. escolhas que ainda estão sendo construídas, dificuldades em se decidir, apatia diante dos rumos da própria vida (não se decidir e deixar que o rumo seja imposto pelas circunstâncias), e por aí vai.

Mas, partindo do pressuposto de que a prática psicológica é orientada para a mudança ou superação, uma função cognitiva que no âmbito das neurociências é chamada de Tomada de Decisão é uma habilidade muito necessária. Pois, a expectativa é que o(a) psicólogo(a) em sua atuação propicie ao cliente/paciente um maior autoconhecimento e consciência das relações e contexto, de forma que a pessoa amplie seu universo de possibilidades e de recursos à sua disposição para lidar com suas questões. Ou seja, amplia o trabalho!

É claro para humanidade, desde a antiguidade que para se tomar uma decisão devemos “usar bem a cabeça”. Ou seja, não tem como prescindir de que nosso cérebro é que vai executar esse trabalho. E os estudos neurocientíficos e neuropsicológicos têm algumas contribuições interessantes para melhor compreensão desse processo de escolher que se torna mais crucial em algumas fases ou âmbitos da vida de um indivíduo.

Porém, vale ressaltar que é um processo cotidiano para nosso cérebro que realiza trilhões de escolhas ao longo do dia que vai desde a forma como acordar, como e quando se alimentar, pisar aqui ou ali, ir por qual caminho, trabalhar com isso ou aquilo, fazer determinada coisa agora ou depois, inspirar mais curto e rápido ou lento e amplo dependendo do tipo de atividade e  etc e tal.  Ou seja, dificilmente alguém pode afirmar que não consegue ou não sabe escolher, a não ser em caso de danos neurológicos muito graves. Fora isso, o que pode estar acontecendo é uma dificuldade de tomar decisões com eficiência em determinadas situações que, dada a importância para a vida do individuo, merece mesmo um nível aprofundado de análises.

Então partindo para conceitos:

Tomando decisõesTomada de Decisão é concebido como “um processo que envolve a escolha de uma dentre várias alternativas em situações que incluam algum nível de incerteza (risco). Nesse processo, o sujeito deve analisar as alternativas considerando diversos elementos, como análise custo/benefício (considerando as repercussões da decisão em curto, médio e longo prazo), aspectos sociais e morais (repercussão da decisão para si e para outras pessoas) e autoconsciência (possibilidades pessoais para arcar com a escolha).” (MALLOY-DINIZ, et all, 2008, pg. 197).

Só considerando a quantidade de parênteses, percebe-se que realmente pode ser um processo custoso.  No entanto, nem toda decisão precisa chegar a esses níveis mais elevados, como relatado anteriormente. Cosenza (2016) esclarece que existem múltiplos sistemas de decisão, de uma forma resumida, podemos destacar três sistemas mais usuais, partindo do mais simples ao mais complexo:

1) Sistema que controla comportamentos inatos – são desencadeados de forma mais rápida, está associado à estruturas mais internas e evolutivamente antigas do Sistema Nervoso Central que regulam comportamentos ligados à alimentação, à reprodução, à aproximação/agressividade;

2) Sistema de hábitos – relacionado ao condicionamento operante diz de uma aprendizagem que ocorre associando um comportamento à suas conseqüências positivas ou negativas.  Nesse caso compreende ações e processos mentais rotineiros nos quais comportamentos que obtiveram sucesso em uma situação semelhante são repetidos e torna-se cada vez mais automáticos, ao passo que comportamentos que obtiveram resultado desastroso são extintos atingindo-se um padrão de funcionamento.  Esse sistema está relacionado à estruturas também mediais e ao circuito dopaminérgico do cérebro.

3) Sistema deliberativo – é o sistema que leva em consideração inferências de conseqüências de alternativas de comportamento visando a escolha daquele que poderá ser a melhor alternativa naquele contexto. Para isso, se baseia na experiência de vida e extrapola as gratificações imediatas, pensando à longo prazo.

 

Desse ponto podemos concluir que várias decisões são tomadas instantaneamente pelo nosso cérebro no dia-a-dia, algumas por determinação biológica, outras por já estar habituado ao contexto, e isso economiza nosso potencial cerebral. Porém, algumas vão exigir bem mais da gente por desejarmos um resultado em um processo que talvez seja pouco conhecido. Esse tipo de decisão exige muito. Segundo Cosenza (2016) no processo de tomada de decisões passamos pelas seguintes etapas:

  • Representar o problema em termos dos estados internos e externos (balanço entre autosatisfação e corresponder ao ambiente);
  • Atribuir um valor às diversas opções possíveis de formas a obter a maior vantagem;
  • Escolher a melhor ação que possibilita alcançar o objetivo pretendido;
  • Monitorar o comportamento para ver se ele foi efetivo;
  • Dependendo do resultado, pode ser necessário atualizar as etapas para em situações futuras saber se é válido usar a mesma estratégia ou modificar.

Todos esses processos relatados acontecem na área do Córtex Pré-Frontal, a área cerebral considerada recente na evolução e que mais se desenvolveu na espécie humana, região localizada logo abaixo da testa indo até aproximadamente a linhas das orelhas.  Esta área é considerada responsável pelo que chamamos de Funções Executivas. Essas englobam conjunto de processos cognitivos que “permitem ao indivíduo PERCEBER e RESPONDER de modo ADAPTATIVO aos estímulos. Responder frente a um OBJETIVO complexo proposto, ANTECIPAR objetivos e consequências futuras e mudar de planos de ação de modo FLEXÍVEL” (STRAUSS, SHERMAN & SPREEN, 2006).  A Tomada de Decisão, nesse sentido é um dos componentes das Funções Executivas que também englobam: Memória Operacional, Categorização, Fluência, Planejamento, Flexibilidade Cognitiva, Controle Inibitório e Solução de Problemas.

E para melhor avaliarmos a habilidade de um indivíduo na tomada de decisões. é importante considerar que essa é uma área que, apesar de começar a se desenvolver no primeiro ano de vida. e ter um boom de desenvolvimento entre 6/8 anos, ela só atinge a maturidade tardiamente, já no início da fase adulta. Por essa razão os adultos devem orientar as crianças e jovens nas suas escolhas, pois o processo complexo não acontece de forma fluída e ampla até se atingir essa maturação. E, por outro lado, o Sistema Nervoso Central se desenvolve tanto por pressões biológicas como ambientais. Por isso é necessário que a orientação de uma crianças seja mais ostensiva e que depois seja atenuada,. dando espaço a uma supervisão no caso dos adolescentes para que eles possam estimular essa habilidade, colocando-a em prática.

E para fechar, as dificuldades relatadas quanto a tomar decisões geralmente são fundamentadas mesmo em adultos. Pois, assim como os adolescentes precisam treinar e muitas vezes cometem erros de avaliação. e decisões equivocadas, não podemos esperar do adulto 100% de sucesso. Afinal o processo deliberativo se faz necessário em situações de incertezas e riscos aos quais estamos tentando melhor nos adaptar,. então é esperado que não se atinja o êxito logo de primeira. Mas, o importante é manter o monitoramento,. para ir se adequando ao longo das descobertas com flexibilidade e reduzido os atos impulsivos. Essa é a chave para conseguir decisões mais acertadas: automonitoramento.

Falaremos um pouco mais sobre o tema no próximo texto. abordando também como as emoções influem no processo de tomada de decisão.

Referências:

  • COSENZA, Ramon M. Por que não somos racionais: como o cérebro faz escolhas e toma decisões. Porto Alegre: Artmed, 2016;
  • MALLOY-DINIZ, Leandro F.; SEDO, Manuel; FUENTES, Daniel; LEITE, Wellington Bprges. Neuropsicologia das funções executivas. In: FUENTES et all. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008, p.187 -206.
  • STRUSS, E., SHERMAN, E.M.S., & SPREEN, O. . A Compendium of Neuropsychological Tests: Administration, Norms and Commentary (3rd ed.). New York: Oxford University Press, 2006. 

 

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Sobre o autor:

Nathalia Santos da Costa Vieira
Psicóloga e Neuropsicóloga na | + posts

Psicóloga | CRP é 04/28.003
Psicóloga e mestre em Neurociências pela UFMG, pós-graduada em Neuropsicologia pela FUMEC. Experiência clínica em Atendimento Psicoterapêutico, Avaliação Neuropsicológica e Orientação Profissional e de Carreira. Experiência em docência em cursos de graduação, pós-graduação de psicologia e psicopedagogia e capacitações em instituições de ensino. Psicóloga na Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura de Nova Lima.
Contatos: (31) 99903-6225 | nathalia@dialogopsi.com.br